quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Compras de Natal: especialistas recomendam fugir do crediário

A correria de milhares de pessoas diariamente nos shoppings de Salvador indica que os baianos já estão empolgados com as compras de fim de ano. Parada mesmo está a Selic, taxa básica de juros estipulada pelo Banco Central. É que o Comitê de Política Monetária (Copom) da instituição decidiu, pelo segundo mês seguido, mantê-la estável em 11,25%. Com isso, os juros cobrados nos financiamentos ainda são considerados altos por especialistas e consumidores. Mesmo assim, lojistas, comerciários e até a indústria apostam nas boas vendas durante o período que antecede o natal e o revéillon na Bahia.
Na hora de sair às compras, é preciso ter bastante cuidado para não se endividar ou obter prejuízos. O alerta é do economista João Carlos Silva, especialista em auditoria econômica e financeira pela UGF-RJ, mestre em Economia pela UFBA e professor da Unifacs. Segundo ele, nas lojas há várias armadilhas que podem enganar o consumidor. Entre elas, o professor destaca os juros embutidos sutilmente nos financiamentos e a Taxa de Abertura de Crédito (TAC), cobrada pela maioria das instituições financeiras.
Para fugir dos perigos, o supervisor de condomínios João Almeida Ferreira, 36 anos, preferiu compra à vista a sua nova máquina de lavar roupas. “No crediário saía por R$ 400, mas eu consegui um bom negócio e comprei no dinheiro por R$ 233”. A economia de João poderia ter sido menor, pois o preço à vista exposto na vitrine era de R$ 280. “Tem que chorar pra ganhar”, comemora.
Quem também pretende ficar longe das compras a prazo são o chefe de restaurante Jorge Morais, 43, e o eletrotécnico Silvio Santos, 36. Eles garantem que vão economizar até 20% neste Natal. Jorge quer um novo guarda-roupa e uma televisão maior. Silvio vai adquirir roupas e calçados para os filhos.
A variação de preços entre as vendas em dinheiro e no crediário às vezes não é percebida pela maioria dos consumidores. Ainda assim, elas podem ser bem grandes. O mesmo modelo de TV de 29 polegadas, por exemplo, pode custar desde R$ 499 até R$ 948 a depender do plano de pagamento e da loja. Em um dos estabelecimentos visitados pela reportagem, o produto era comercializado a R$ 799 com as opções de parcelamento em 10x iguais no cheque ou cartão. “À vista, em dinheiro, ela sai por R$ 589”, garantiu o vendedor. Ou seja, a televisão fica 27% mais barata nessa opção de pagamento. Nas lojas, os juros cobrados do consumidor giram em torno de 1,5% nos parcelamentos em até 12 meses. No caso de prazos mais longos, a taxa chega a 3,5% ao mês (42% ao ano).
Apesar disso, as compras parceladas ainda representam grande parte dos negócios realizados no varejo. O gerente de vendas de uma grande loja de eletroeletrônicos assegura que os consumidores adoram uma prestação. “Normalmente os clientes usam o décimo terceiro na regularização da vida financeira, com o pagamento das dívidas e adquirem novos débitos com os parcelamentos”, avalia.
É para evitar essa armadilha que Veranilce Nunes vai organizar o seu Natal. A promotora de vendas disse que vai comprar as lembrancinhas à vista e somente os presentes mais caros a prazo. “Tudo pra não perder o controle das finanças”, garante.
Ana Mércia Coelho, gerente de uma loja especializada em tênis importados, afirma que sete de cada 10 clientes que fecham negócio no estabelecimento em que trabalha optam por comprar os calçados de forma parcelada. A gerente também explica que o comércio está precavido. “A gente trabalha apenas com cartão de crédito para não haver prejuízo com chequews sem fundos”, diz.
Bom pagador – Embora a preocupação de Ana Mércia seja grande, o baiano é considerado um bom pagador na comparação com consumidores de outros estados. De acordo com levantamento da Serasa, uma das principais empresas brasileiras de proteção ao crédito, a média mensal de cheques devolvidos na Bahia é de 29,5 para cada mil compensados. Já no Maranhão, líder em inadimplência na região Nordeste, a relação de cheques sem fundo é superior a 60 para cada mil compensados.
Segundo os técnicos da Serasa, a inadimplência com cheques vem dimuindo ao longo dos últimos meses, principalmente devido ao aumento da renda média dos trabalhadores, ao crescimento do número de empregos com carteira assinada, à redução das taxas de juros e ao alongamento dos prazos de financiamento. Além disso, a multiplicidade das formas de crédito ajudou a melhorar a educação financeira do consumidor, que hoje utiliza o pré-datado com mais disciplina.

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